Terça-feira, 21 de Novembro de 2006

Conversas

 "The Scream" de E. Munch

Agora que falamos pouco ou quase nada, parece que falo com um fantasma que habitou a minha imaginação mas resolveu mudar de "casa".

De vez em quando, visitas-me, mas precisas quase sempre que eu te chame.
Também acontece seres tu a fazê-lo mas nem sempre te abro a porta. Costumavas ficar confuso comigo, dizias tu, precisamente porque eu só o fazia quando queria, não quando tu me chamavas. Continuo assim, agora que mal falamos.

Cada vez que regressas à minha "casa" pobre e nua mas ao mesmo tempo cheia de tudo e povoada de cores e cheiros, o que sentes? Não sei, nunca mo disseste. Em nós tudo se adivinha, nada se confessa. Foi sempre assim!

Cada vez que te deixo entrar, (ambos continuamos com rostos estáticos e sem voz) vou mostrar-te os lugares onde nos "encontrámos", onde rimos e brincámos e até onde nos zangámos algumas vezes.

Tu tentas seguir-me!


Temos a ilusão que tudo se repete mas, qualquer dia, ficará apenas a memória da janela do andar de baixo da minha casa, de onde olhávamos o mar, porque na realidade não tivemos tempo nem quisemos subir ao terraço, de onde a vista é mais deslumbrante.
Tivemos ambos medo de ficarmos encantados com o que poderíamos observar e sentir.

Hoje convidei-te!
Tu transpuseste logo a porta e cá estamos a passear pelo que já foi.
Ficámos silenciosos à janela do piso de baixo, como sempre a olhar o mar mas como se cada um estivesse sozinho perante ele.

E ficámos porque o mar nos aproximou.
Ficámos porque o nosso amor pelo mar e pelas palavras escritas, traçou um fio invisível que nos liga um ao outro.
Ficámos porque aceitámos ambos, em tempos idos, o desafio que o mar lança sempre: O desconhecido, a beleza do movimento, a cor, a atracção pelo mistério.

Aqui estamos. Sem cara, sem voz, sem nos sentirmos, sem amanhã.
Seremos sempre um mistério um para o outro.
Seremos sempre desconhecidos, mas sentindo o pulsar um do outro.
Seremos por fim, o mar nunca domado e eternamente livre

Não sei quando te voltarei a "convidar" para veres o mar comigo. Sei apenas que o veremos sempre, eu do terraço do último piso da minha casa. Tu não sei de onde... Mas sei que o vês tal como eu, em completa solidão...

T.E.

2005

neste momento estou: nem sei...
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escrevinhado por MT-Teresa às 15:10
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